Dentre os TABUS sociais, a MORTE é ainda o mais forte. Se para adultos tratarem da finitude da vida, e compreender que ela se dá à todos independente de etnia, classe ou idade é complexo, imaginemos então, tratá-las com as crianças.
José Carlos Rodrigues (1983) no livro "Tabu da Morte", nos diz que "(...) o fantasma do
aniquilamento ronda, envolve, fustiga, desafia todos os sistemas humanos de
explicação do homem e do mundo...", assunta adultos...assusta crianças, porém, não deve ser negado.
Trazemos então, algumas dicas de literatura infantil para ajudar adultos e crianças no sentido de apropriarem-se do tema e torná-los mais acessíveis, mais compreensíveis, mas jamais, insensíveis.
No prefácio do Livro "Formação e rompimento de vínculos" (2010), Colin Murray Parkes, inicia dizendo: "AMOR E LUTO, VÍNCULO E PERDA, são duas faces da mesma moeda: não se pode ter uma sem ter a outra. O luto é o custo do amor, e a única maneira de evitar a dor do luto é evitar o amor."
Na apresentação dessas coleções, nossa intenção é: o AMOR!
Comecemos então.....pelo...
“O pequeno príncipe” - Antoine Saint-Exupéry (1900), é a mais
bela obra sobre a morte. O autor inicia a história com o problema a partir de
desenhos. Primeiro, sobre “uma jibóia que engolia uma fera”; depois, ele
desenha “uma jibóia digerindo um elefante”, seguido da pergunta: “meu desenho
causa medo”? Eis aqui o primeiro questionamento dessa criança sobre a morte,
mas, os adultos não compreenderam. Depois de crescido, numa viajem, seu avião cai
no deserto, e ele então, encontra o “Pequeno Príncipe”, que, por dias, vivem uma relação estreita de perguntas e respostas sobre o sentido da vida e da morte.
No final da aventura, o autor conserta seu avião e pode retornar para casa. O
“Pequeno Príncipe”, com ajuda de uma cobra (olha a "jibóia" aqui de novo), retorna ao seu planeta, mas deixa
seu corpo.
Trecho do livro:
“- Esta noite ... tu sabes ... não venhas.
- Eu não te deixarei.
- Eu parecerei sofrer ... eu parecerei morrer. É
assim. Não venhas ver. Não vale a
pena...
- Eu não te deixarei.
Mas ele estava preocupado.
- Eu digo isto ... também por causa da serpente. É
preciso que não te morda. As
serpentes são más. Podem morder por gosto ...
- Eu não te deixarei.
Mas uma coisa o tranqüilizou:
- Elas não tem veneno, é verdade, para uma segunda
mordida...
Essa noite, não o vi pôr-se a caminho. Evadiu-se
sem rumor. Quando consegui
apanhá-lo, caminhava decidido, a passo rápido.
Disse-me apenas:
- Ah ! estás aqui ...
E,ele me tomou pela mão. Mas afligiu-se ainda:
- Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei morto e
não será verdade...
Eu me calava.
Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso
carregar esse corpo. É muito pesado.
Eu me calava.
- Mas será como uma velha casca abandonada. Uma
casca de árvore não é triste...
Eu me calava.”
Autor:
Antoine
Jean Baptiste Marie Roger Foscolombe de Saint-Exupéry foi um escritor,
ilustrador e piloto civil e subtenente da reserva, terceiro filho do conde Jean
Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Nasceu
em 29 de junho de 1900, Lyon, França.
morreu num acidente de avião, em 31 de julho de 1944,
provavelmente, perto da baía de Carqueiranne, em Toulon. Seu corpo não foi
identificado.
Nossa segunda história é de...
“Vó
Nana”, de Margaret Wil e Ron Brooks (Editora
Brinque-Book/2000), conta a sensível relação entre avó e neta que compartilham
uma vida juntas, mas, na história, há uma "despedida natural" que todos nós encontramos pela
vida: a morte! É envolvido por um ambiente de serenidade e de paz que se
apresentam pelas belezas da vida e pelo resgate das coisas simples que nos são tão
caras. O texto é delicado e as ilustrações, uma verdadeira obra de arte.
Autora: Margaret
Wild: nasceu na África do Sul e foi para a Austrália em 1972. Ela trabalhou
como jornalista em revistas e jornais, e também foi editora de livros infantis
durante dezesseis anos, gerenciando e comissionando uma enorme quantidade de
títulos. Agora, morando em Sydney, ela escreve em tempo integral e trabalha em
seu segundo romance para crianças.
Ilustrador: Os trabalhos de Ron Brooks incluem
desenhos, pinturas, esculturas, palestras sobre arte e desenho. Ron ganhou por duas vezes
o prêmio “Children’s Book Council of Australia Picture Book of the Year” e
ilustrou vários e significativos livros infantis, incluindo "The Bunyip of
Berkeley’s Creek", "Jonh Brown", "Rose and the Midnight
Cat". Allen & Unwin foi a
editora que publicou o aclamado "Fox", além de "Vó Nana" e
"Rosie and Tortoise", todos eles escritos por Margaret Wild. Os
livros de Ron foram publicados em vários países e ele é muito conhecido como o
ilustrador que levou os livros infantis australianos para o cenário mundial.
Outra lindíssima obra....é de uma brasileira,
“Saudade do que se foi, de quem se foi...”,
de Renata Adrião D´Angelo (Editora Átomo/2010), é uma obra poética que trata de
sentimos e coloca a morte como saudade natural causado pelo sentimento da
perda. “Uma leitura para se entender / a morte de alguém querido / com poesia,
suavidade, e com a / simplicidade do ciclo da vida...”. Uma leitura que nos
remete ás simplicidades que nos envolve no cotidiano: a chuva, a brisa, a lua,
o perfume...
Autora: Renata Adrião D´Angelo é natural de
São Paulo, residindo em Campinas desde 1996. Apaixonada por livros desde
criança, passou a escrever textos para serem dramatizados pelos colegas ainda
no tempo de escola. Formou-se em Letras, casou-se, teve três filhos, sem nunca
deixar de escrever poemas e contos, destinados às crianças e jovens, para quem
leciona desde os 18 anos. Escrever para esse público, para ela, é um exercício
de esperança, por possibilitar reinventar o homem, abastecendo-o de alegria e
de fé na vida!
Outro autor brasileiro também nos encanta.....
“Lino”, de André Neves (Editora callis/2011), é a história da
amizade de Lino, um porquinho, e Lua, uma coelhinha branca que moram juntos
numa loja de brinquedos. Um dia, Lua desaparece e Lino, se entristece tentando
entender o que aconteceu. Um dia, Lino também quase desaparece...mas, encontra
Estrela, sua nova amiga, que, proporciona a ele um reencontro com Lua, mas,
desta vez...será diferente.
Autor: André Neves é ilustrador e
autor de livros infantis. Já publicou diversos títulos no Brasil e no exterior.
Participou também de importantes exposições e catálogos sobre a arte de
ilustrar livros. Atualmente vive em Porto Alegre, onde estuda e trabalha, mas nunca teve um coelho nem um porquinho em sua casa. Talvez por isso tenha
escrito essa história.
E finalizamos com....
“Pochê – uma tartaruga que viveu a vida”, de Florence Seyvos e
Claude Ponti (Editora WMF Martins Fontes Ltda, 2011), é uma aventura sobre a
vida, a morte, o luto, e todas as dificuldades desse momento de adaptação com o
diferente e a readaptação com a vida. Pochê presencia a morte de seu
companheiro Polegar, e imediatamente nega sua morte, primeiramente, não
abandonando o corpo e, depois, dialogando com ele por bilhetes, os quais, ela
mesmo escrevia. Essa história põe para nós a dificuldade de viver o luto, que,
por muitas vezes parece ser infinito. Acompanhar o trajeto de Pochê é
importante, para adultos e crianças, porque o luto é necessário e real. O luto
é uma forma de se despedir das pessoas (ou animais) queridas.
Autora Florence Seyvos:
nasceu em 1967, em Lyon, na França. Começou sua carreira traduzindo livros
infantis. Em 1989, publicou seu primeiro romance. Mora atualmente em Paris.
Ilustração: Claude
Ponti: Nasceu em 1948 na região de Lorena, na França. Estudou artes, letras e
arqueologia.
Não negue à criança o direito ao luto!!!!E....boa leitura!
Outras sugestões: